Luz da Escuridão – O Poder Transformador de Escrever uma Carta

'Posso dizer, ao ler suas cartas, que você é bastante articulado e divertido. Estou um pouco intimidado com a idéia de conhecê-lo, no sentido de talvez você ficar cansado de mim... Por que você perderia seu tempo com alguém como eu? Alguém que não tem um diploma de ensino médio, não tem dinheiro ou família e está na linha da morte? Diga-me verdadeiramente, que tipo de pessoa gostaria de conhecer alguém assim?'

Carta extraída de ‘Bem-vindo ao inferno: Cartas e Escritos do Corredor da Morte’ 

Jan ArriensJan ArriensJan Arriens é o fundador de ‘Corredores da Vida’, uma organização que encoraja pessoas a escrever cartas a prisioneiros no Corredor da Morte. Apesar de professar-se um correspondente ‘muito ruim’, a organização de Arriens agora tem mais de 1400 membros oferecendo apoio e amizade a prisioneiros através da troca de cartas.

Em 10 de Fevereiro ele falou no Fórum de Greencoat no Centro de Iniciativas de Mudança em Londres sobre como a organização começou, a capacidade única de escrever cartas parece desvendar a mais improvável – e mais forte – das amizades e também compartilhou alguns dos momentos mais humildes de sua longa correspondência com alguns prisioneiros do Corredor da Morte.

Arriens, numa noite em casa em Novembro de 1987, desavisadamente mudando de canal, parou num documentário da BBC seguindo os últimos dias de um prisioneiro no Corredor da Morte. ‘Antes o Corredor da Morte era tão distante de mim quanto deve provavelmente ser para você’, disse Arriens. ‘Eu já tinha decidido antes que evitaria o documentário já que soava depressivo demais mas, uma vez que comecei a prestar a atenção, fiquei absorvido’.

Foi uma decisão muito importante. O documentário, ’14 dias em Maio’, filmou um jovem prisioneiro, Edward Earl Johnson, no Corredor da Morte no Mississipi nas duas últimas semanas antes de sua execução. ‘Os prisioneiros, os guardas – ninguém parecia querer que esse jovem franco e gentil morresse. Ainda que tudo fosse inevitavelmente feito, o processo calculado de sua execução me reduziu a lágrimas.

‘Depois, fui levado a esta angústia impotente. O filme falou tão profundo em mim que decidi escrever cartas a outros três prisioneiros que apareceram no documentário’. Quando todos os três me responderam com palavras vindas do coração, as sementes do ‘Corredor da Vida’ foram semeadas.

‘Fui surpreendido por como eloqüente e tocante foram aquelas primeiras cartas. Pensei, ‘aqui tem três pessoas sensíveis mostrando humanidade real’. Pensar que homens seriam executados pelo Estado estava além de minhas forças de compreensão’.

A sorte daqueles primeiros três correspondentes poderia ser considerada uma franca reflexão dos prisioneiros do corredor da morte: Leo Edwards foi executado 18 meses depois de 18 anos na prisão no Corredor da Morte; Sam Johnson teve sua sentença mudada depois de 11 anos no corredor mas depois morreu na prisão; John Irving saiu do Corredor da Morte depois de quase 31 anos.

De acordo com Arriens, ‘passar décadas no corredor da morte não é um extremo insano – um número significativo perderá mais tempo esperando por sua morte que muitos prisioneiros ingleses numa sentença de vida’. A média de tempo no Corredor da Morte é de cerca de 6 anos.

Um número significante eventualmente terá tido suas sentenças completamente mudadas enquanto muitos simplesmente ficam esperando.

‘Esses prisioneiros são seres-humanos no Corredor da Morte. Não monstros. Sam Johnson provou ser em especial um incrível correspondente e fui para vê-lo um ano depois’. É uma existência inimaginável’. Prisioneiros vivem em prisões de concreto e aço com mínima interação humana. ‘Aqui estão pessoas que são deixadas por anos no mais intenso isolamento e ainda na menor condição mental para levar isso’.

Depois, Arriens se apresentou como o fundador do ‘Corredores da Vida’ ao prisioneiro Antonio James. ‘Estava relutante em abordá-lo em momento tão estressante mas no momento que ele soube de onde eu era, sua face mudou completamente: ‘As duas mulheres que têm escrito para mim da Grã-Bretanha? Elas têm sido a melhor coisa em minha vida’.